Fernanda Soares
Fernanda Soares

16/03/2021, 16h


Num dos momentos mais graves da pandemia no Brasil, com descontrole no crescimento de casos, mortes e colapso nos hospitais, o governo Bolsonaro confirmou nesta segunda-feira (15) a substituição do ministro da Saúde, o general Eduardo Pazuello, pelo médico cardiologista Marcelo Queiroga.

 

A pressão pela queda do general aumentou com o agravamento da pandemia e a lentidão na campanha de vacinação e, no último final de semana, mesmo antes do anúncio oficial, sua saída já estava sacramentada.

 

Pazuello cai após uma gestão marcada por posturas negacionistas e anti-ciência e de incompetência no combate à pandemia. Colocando em prática uma política alinhada a de Bolsonaro, Pazuello defendeu o uso medicamentos sem eficácia contra a Covid-19, demorou a negociar a compra de vacinas, foi omisso ou ausente em definir políticas públicas de combate à Covid.

 

Sob seu comando o Ministério da Saúde cometeu erros primários até mesmo de logística, que supostamente era a “especialidade” do militar. Testes de Covid-19 perderam a validade nos estoques do governo e o envio de vacinas aos estados enfrentaram problemas, como a troca na quantidade de doses entre o Amazonas e o Amapá, por exemplo.

 

O agora ex-ministro também sai do governo sob várias investigações, como por omissão na grave crise ocorrida em Manaus, em que pessoas morreram asfixiadas por falta de oxigênio, e desperdício de dinheiro público na compra de cloroquina para tratamento da Covid, apesar do medicamento não ter eficácia contra a doença.

 

O novo ministro

O médico Marcelo Queiroga é quarto nome escolhido por Bolsonaro para ocupar o Ministério da Saúde. Nascido e formado em João Pessoa (PB), Queiroga é diretor do Serviço de Hemodinâmica e cardiologista intervencionista do Hospital Unimed da capital paraibana, e médico intervencionista no Hospital Metropolitano Dom José Maria Pires, em Santa Rita (PB).

 

É também presidente da Sociedade Brasileira de Cardiologia e tido como próximo ao filho do presidente, o senador Flávio Bolsonaro.

 

Ele não foi a primeira opção sondada pelo governo. A médica cardiologista Ludhmila Hajar foi cotada para assumir o Ministério e chegou a se reunir com Bolsonaro. Mas, negou o convite, alegando “diferenças técnicas” com o presidente.

 

As posições da médica dão indícios do que seriam essas “diferenças”: durante a pandemia, Ludhmila já se declarou contra a cloroquina no tratamento da Covid-19, por não ser indicada cientificamente; defendeu o uso de máscaras; o distanciamento social e a necessidade de vacinação. Ou seja, todas as medidas eficazes contra a Covid-19, mas desprezadas por Bolsonaro.

 

Ao rejeitar o cargo, a médica foi ameaçada por bolsonaristas, que chegaram a tentar invadir o hotel em Brasília em que estava hospedada, o que merece ser repudiado veementemente e investigado a fundo.

 

Já Marcelo Queiroga, por outro lado, em suas primeiras entrevistas após ser anunciado como ministro declarou que vai executar a política definida pelo governo, o qual já auxiliou logo após as eleições em 2018. Ou seja, nada animador.

 

À CNN, indagado sobre a defesa de tratamento precoce para Covid-19 por Bolsonaro, Queiroga defendeu que “é algo que precisa ser analisado para que a gente consiga chegar a um ponto comum que permita contextualizar essa questão no âmbito da evidência científica e da ciência”. “Isso é uma questão médica. O que é tratamento precoce? No caso da Covid-19, a gente não tem um tratamento específico. Existem determinadas medicações que são usadas, cuja evidência científica não está comprovada, mas, mesmo assim, médicos têm autonomia para prescrever”, disse.

 

Em resumo: enrolação para agradar Bolsonaro e abrir espaço para políticas ineficazes e perigosas à saúde.

 

Nesta terça-feira, ao chegar para uma reunião com Pazuello, Queiroga falou com a imprensa e declarou que “o Ministério da Saúde executa a política do governo”.

 

“O governo está trabalhando. As políticas públicas estão sendo colocadas em prática. O ministro Pazuello anunciou todo o cronograma da vacinação. A política é do governo Bolsonaro. A política não é do ministro da Saúde. O ministro da Saúde executa a política do governo. Ministro Pazuello tem trabalhado arduamente para melhorar as condições sanitárias do Brasil e eu fui convocado pelo presidente Bolsonaro para dar continuidade a esse trabalho”, disse Queiroga.

 

Essa declarações já acendem um alerta vermelho. Afinal, é sob o comando de Bolsonaro e Mourão e de Pazuello que o Brasil chegou à atual situação gravíssima na pandemia, com o país em colapso e sem vacinas. Dar continuidade nesse trabalho é seguir permitindo o genocídio em curso no país.

 

É por isso que o próximo dia 24, Dia Nacional de Mobilização, que está sendo organizado por entidades do movimento sindical, popular e da sociedade civil em geral, ganha fundamental importância.

 

Somente com mobilização e pressão será possível garantir vacinação imediata para toda a população, lockdown nacional com auxílio emergencial de pelo menos um salário mínimo para os trabalhadores, apoio financeiro aos pequenos negócios e por para fora Bolsonaro e Mourão. Só assim conseguiremos defender a vida, os empregos e direitos que estão em risco sob esse governo de ultradireita.