"Por que o telefone toca tão tarde, meu Deus?!", pensou desconfiada e com o coração apertado Maria Edivânia, esposa de Antônio Pedro.
João Antônio, o filho, foi quem atendeu ao telefone. O anúncio fúnebre veio quando encostou a cabeça no travesseiro para dormir. Quando viu o filho chorando, Edivânia confirmou o mal pressentimento. Antônio se foi. O choro deles cortou a madrugada.
Sua vida foi interrompida às 23h16 do dia 1° de julho. Teve queda de pressão e não resistiu.
A falta, a angústia e o vazio tomaram conta da família. "É difícil perder o pai". A pesada frase saiu trêmula de João. "É angustiante, é angustiante..." Eles não esperavam a amarga notícia, pois Antônio tinha apresentado melhoras.
A casa também morreu. Os móveis, quietos, observavam a dor. Antônio adorava Roberto Carlos e filmes antigos. Quando a família ouve alguma música do cantor, logo vem um turbilhão de lembranças boas e o seu sorriso.
Ele gostava muito de celebrar a vida. Nunca deixou de comemorar um aniversário do filho. "Não podemos deixar passar em branco!", dizia. Reunia a família sempre; gostava da casa cheia.
O sonho do trabalhador era dar uma vida melhor à família. Queria ver o filho formado e depois se mudarem para uma casa melhor.
Tinha opinião forte e falava as coisas "na lata". Mas o jeito firme escondia um coração generoso. Não dizia "não" para nada. Sempre arranjava uma solução para os problemas.
Edivânia estava sentada nos bancos do Hospital Walfredo Gurgel momentos antes dele ser transferido para o Hospital da Liga. Quando ele passou na maca, ela gritou: "Você vai ficar bem, Toinho!" Ele fez sinal positivo com a mão.
Cuidadoso, não podia ver ninguém chorando que fazia sempre algo para ajudar. Antônio havia perdido a irmã 19 dias antes dele falecer, também por Covid-19. Dupla dor para a família.
A morte não o amedrontava. "Quando eu morrer me coloquem dentro do caixão e me enterrem logo", dizia. Seu pedido foi aceito.
Seu amor pelo trabalho era imenso. No meio de um plantão, tropeçando nas palavras pela emoção, Paulo, um dos amigos e colega de trabalho de Antônio Pedro, contou sobre a dificuldade da perda. "Foi muito difícil. Ele não foi o primeiro. Já perdemos vários aqui".
Paulo sempre conversava com Antônio e perguntava como ele estava. "Neguinho, eu não vou trabalhar hoje", disse Antônio a Paulo durante uma ligação. Paulo ficou preocupado, porque o amigo nunca deixou de trabalhar mesmo estando doente.
"Você vir trabalhar e saber que tem um colega que está internado e depois nos deixar... isso mexe muito com a gente", conta Paulo emocionado. Paulo define o amigo como uma "pessoa fantástica". Era sempre alegre, brincalhão.
"Cuide da sua mãe, meu filho", pediu Antônio Pedro antes de morrer. O amor que o pai tinha pela enfermagem inspira João, que segue a mesma carreira. O filho carrega o pai no nome e seus ensinamentos.
Relatos compartilhados pela esposa de Antônio Pedro, Maria Edivânia e o filho, João Antônio
Escrito e apurado por Tiago Silva