Às vésperas do Dia da Consciência negra no Brasil, mais um preto morre brutalmente pelas mãos daqueles que deveriam garantir a segurança de TODOS! João Alberto, conhecido como Beto, de 40 anos, foi espancado e morto por dois seguranças (brancos) no estacionamento do Carrefour na noite desta quinta-feira (19), em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. O crime foi filmado por clientes do supermercado,e os agressores foram identificados como Magno Braz Borges e Giovane Gaspar da Silva.
João não é o primeiro homem preto a morrer pela brutalidade e negligência das grandes empresas. Em fevereiro do ano passado, Pedro Gonzaga de apenas 19 anos, foi imobilizado e morto pelo segurança do supermercado Extra, no Rio de Janeiro. De forma muito parecida morreu o americano George Floyd, assassinado durante uma abordagem policial em junho deste ano. E a lista não para. Longe dos estacionamentos de franquias milionárias, balas atingem ‘por engano’, todos os dias, inúmeros Marcus Vinicius, Ágatha Félix e João Pedro em todo o Brasil.
O Sindsaúde/ RN repudia veementemente o abuso policial e as ações genocidas que resultam em mortes violentas como a de João Alberto, e presta solidariedade a toda a sua família e amigos. E cobramos às autoridades que os agressores e o hipermercado sejam punidos devidamente.
Neste, 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, não queremos felicitações, hashtags rasas e antiracismo de redes sociais. Queremos respeito, justiça, igualdade em nossos direitos, queremos respirar e a ter a liberdade de frequentar e ser voz em todos os espaços públicos e políticos! Precisamos do acesso e da representatividade!
Racismo, saúde e trabalho
O racismo estrutural que permeia a sociedade em que vivemos atinge de forma violenta todas as esferas da vida das pessoas pretas pelo mundo. Além do preconceito e da violência física que marca a nossa pele e tira nossas vidas, também enfrentamos a apatia por parte dos governos que mostra a cada dia a discrepância do acesso a direitos básicos para uma vida digna, sobretudo se essa vida pertence a uma pele retinta e pobre.
O mercado de trabalho é só mais uma vertente de como essa desigualdade atua. A crise provocada pela pandemia do novo coronavírus acentuou uma situação que já era muito grave no Brasil, como mostram os dados mais recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e do Ministério da Economia.
Ainda que pretos e pardos representem mais da metade da população do país (56,8%), estes são os menos empregados e mais prejudicados pelos efeitos da crise no mercado de trabalho, sobretudo os pretos.
Os dados apontam que:
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O desemprego aumentou mais entre os pretos
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Pretos têm menor proporção entre os trabalhadores com carteira assinada
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A remuneração dos pretos é menor que a dos demais em todos os segmentos
No entanto, mesmo antes da pandemia o IBGE já havia divulgado dados alarmantes sobre como o mercado de trabalho não é inclusivo para pessoas pretas. As mulheres sempre foram as mais atingidas. Neste sentido, têm-se que o desemprego atinge 16,6% das mulheres pretas contra apenas 8,3% de homens brancos. O percentual para homens pretos é de 12,1% e de 11% para mulheres brancas.
Tais estimativas mostram que mesmo com o crescimento da presença dessas pessoas nas Universidades, a partir das ações afirmativas (lei 12.711, de 2012, conhecida como Lei de Cotas), se o mercado de trabalho não acolher estes profissionais, eles continuarão à margem. Na área da saúde, por exemplo, de acordo com IBGE em 2015, os pretos representavam menos de 18% dos médicos do Brasil. Esses dados são um reflexo da desigualdade também na educação, uma vez que por se tratar de cursos muito concorridos, alcançar uma vaga sem uma educação de base é mais difícil.
Uma das possibilidades existentes para mudar o atual cenário é pensar em ações afirmativas também no mercado de trabalho, assim se estimula a adoção de uma maior variedade de integrantes nas empresas, possibilitando também as chances de pessoas racializadas chegarem a ocupar cargos mais altos na hierarquia. Além disso, são necessárias mudanças significativas no ensino base. Cursinhos gratuitos ou de baixo custo nas comunidades, atrelados a política de cotas e ao trabalho de coletivos engajados nas lutas sociais, por exemplo, são medidas que comprovadamente já fizeram a diferença na vida de muitas pessoas pretas que conseguiram ocupar espaços a partir destas ações pensadas para promover a equidade de direitos.
Queremos pretos e pretas no poder, na saúde, na educação, na política e na presidência. Não só como técnicos, mas também como médicos, enfermeiros, dentistas. Queremos pretos na Universidade como alunos e professores. Queremos pretos como juízes, mas também livres para se expressar artisticamente: na dança, no funk, no rap, na poesia. Queremos pessoas pretas existindo com dignidade.