Considerado o segundo país com mais cristãos no mundo e o número um em quantidade de católicos, o Brasil, na verdade, vive uma realidade muito distante dos preceitos defendidos por suas próprias religiões majoritárias. Nem mesmo na época dos festejos de final de ano as mulheres estão um pouco mais seguras, pelo contrário. No Natal de 2020, época do nascimento do maior símbolo do cristianismo que se deu através da fé, força e coragem de uma mulher, o Brasil registrou pelo menos 6 casos de feminicídios brutais.
“Gosta de surpresa?" perguntou por mensagem o ex-companheiro de Thalia Ferraz,23 anos, um dia antes de matá-la a tiros na noite do dia 25 de dezembro em frente aos seus familiares. O crime aconteceu em Santa Catarina, o homem não aceitava o fim do relacionamento. Pelo mesmo “motivo”, na noite anterior (24), a juíza Viviane Vieira do Amaral Arronenzi do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro foi assassinada pelo ex-marido com 16 facadas na Barra da Tijuca. O assassinato aconteceu na frente das três filhas do casal.
Durante a ceia de Natal, no dia 25, Evelaine Aparecida Ricardo, de 29 anos, morreu após ser baleada pelo namorado em Curitiba. Loni Priebe de Almeida, de 74 anos, foi morta com um tiro na cabeça pelo ex-companheiro, que cometeu suicídio logo em seguida no Rio Grande do Sul. Anna Paula Porfírio dos Santos, de 45 anos, foi morta a tiros, também pelo marido, dentro de casa e na frente da filha de 12 anos, o crime aconteceu em Recife. A sexta vítima desse período, foi Aline Arns, de 38 anos, baleada pelo ex-companheiro também no interior da residência em Santa Catarina.
Thalia, Viviane, Evelaine, Loni, Anna, Aline e tantas outras. Mortas por serem quem são. Prisioneiras da violência estrutural do machismo que mata e vai continuar matando até que o assunto seja debatido e combatido com a importância que se deve. Dados levantados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública revelam que quase 90% das vítimas de feminicídio no Brasil são mulheres mortas por ex-maridos ou ex-companheiros. Tal informação revela o quão destrutivo é o pensamento de que as mulheres são objetos pertencentes aos homens e que são eles que decidem como elas devem viver e, pior, se elas merecem viver.
Com a chegada da pandemia todo esse quadro de horror e violência machista se agravou ainda mais. As condições de isolamento necessárias para conter o vírus exacerbou o convívio de muitas mulheres e crianças com seus agressores e dificultou os meios para buscar apoio ou escapar da violência. Engana-se quem pensa que o feminicida é um monstro distante da nossa realidade. Os feminicidas são quem menos se espera. São pais de família, homens que trabalham, que são filhos, irmãos, amigos. Homens comuns que, muitas vezes, vemos praticando violências simbólicas. São homens com ciúmes excessivo, comportamentos machistas, que anulam suas próprias companheiras, gritam quando estão nervosos, fazem chantagem emocional e aterrorizam seus psicológicos. Infelizmente, o feminicídio é uma violência enraizada, reforçada pelos discursos de ódio do governo Bolsonaro e de seus aliados. Essas posturas conservadoras são reforçadas na sociedade, e possuem consequências muito concretas na vida das mulheres. O Brasil, que sempre esteve no topo da lista de países onde mais se agride e mata mulheres, tem visto esses dados aumentar.
O Sindsaúde/RN repudia toda e qualquer forma de violência contra a mulher e reitera a importância dos governos aplicarem políticas públicas de combate à violência contra a mulher. As mulheres precisam de segurança econômica, mais empregos e com melhores remunerações, casas abrigo, um sistema de saúde pública que lhe ampare nos casos de violência, com profissionais qualificados e equipamentos de saúde preparados para isso.
Nossos sentimentos à todas irmãs de luta que tiveram suas vozes silenciadas, não só neste curto período de tempo que era para ter sido de celebração, mas durante o ano todo. Por todas que ainda seguem na luta, resistiremos juntas pelo nosso direito de ser e existir nessa sociedade. Nossas vidas importam. Parem de nos matar!