O marmorista Marcelo Guimarães, de 38 anos, estava indo trabalhar quando foi morto, com um tiro no peito, por policiais em um dos acessos à Cidade de Deus, na Zona Oeste do Rio. O assassinato brutal aconteceu na manhã de ontem(4) e causou comoção e revolta nos moradores do local.
De acordo com a página “ CDD Acontece”, Marcelo, que era pai de dois filhos, tinha acabado de deixar o caçula na creche e iria para o trabalho. Como esqueceu o celular em casa, voltou para buscar o aparelho e logo no caminho, por volta das 8h30, foi atingido por um disparo que os moradores afirmam ter vindo do chamado ‘caveirão’ do 18º BPM (Jacarepaguá).
Muito abalada, sua esposa Carla Roberta da Silva Cruz afirma que não houve confronto no momento em que Marcelo foi atingido, tal informação é defendida por moradores do local e pessoas que estavam nas proximidades no momento do ocorrido. A assessoria da corporação, por sua vez, afirma que a equipe realizava um patrulhamento na região quando criminosos atiraram contra os policiais. De acordo com eles, durante a troca de tiros, Marcelo foi fatalmente atingido.
Segundo os familiares, a vítima sequer tinha vícios como fumar e beber, era trabalhador e jamais teve qualquer tipo de ligação com o mundo do crime. Ainda sim, Marcelo era um homem preto em cima de uma moto. E isso, no Brasil é sinônimo de “lugar errado na hora errada” em qualquer momento do dia.
Seria Marcelo mais uma vítima da violência de uma polícia que diariamente costuma ‘se confundir’ dentro das comunidades? O Sindsaúde/RN repudia toda e qualquer violência por parte da polícia militar e exige justiça por Marcelo Guimarães e tantos outros que morreram covardemente da mesma forma.
Polícia militar genocida
Menos de um mês atrás, dois jovens: Edson Arguinez Junior, de 20 anos, e Jordan Luiz Natividade, de 18 anos foram encontrados mortos em Belford Roxo, na Baixada Fluminense, após uma abordagem feita por dois policiais militares na madrugada do sábado, 12 de dezembro. Imagens de câmeras de segurança mostram a violência com que agiram os dois policiais.
Inicialmente, um deles atira em direção aos dois jovens que passam de moto e ambos caem, em seguida o PM dá um chute nas costas de um dos garotos e por fim as imagens mostram um carro branco que estava parado atrás do da polícia deixar o local.Outra câmera consegue mostrar o momento em que os jovens são algemados e levados pelos policiais.
No carro, a perícia encontrou o que acredita ser manchas de sangue no chão e no tapete do veículo. Edson e Jordan foram encontrados em outro local, distante do ponto onde foi feita a abordagem. “Dois rapazes não podem andar numa moto só porque são pretos?” Indagou com revolta a mãe de Edson no dia de seu enterro.
E esses não são casos isolados. Por todo país a violência policial cresce e segue vitimando pessoas de todas as idades, sobretudo jovens, pretos e de comunidade. Um estudo do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, por exemplo, aponta que a letalidade policial só em São Paulo cresceu 31% no período entre janeiro e abril, mês que bateu recorde de mortes pela polícia (119, contra 78 em 2019) durante a vigência da quarentena. Tal violência é constantemente legitimada e protegida pela impunidade.
Impunidade essa que torturou os familiares do jovem Giovani de Oliveira por vinte anos. O garoto tinha 18 anos quando foi visto com vida pela última vez entrando em uma viatura da Polícia Militar em frente a uma padaria em Arujá, na Grande São Paulo, no dia 25 de agosto de 2000. O sargento que queimou o corpo da vítima foi condenado a 24 anos de prisão por homicídio qualificado, apenas em novembro do ano passado, mais de vinte anos após o crime.
Quanto às justificativas, sempre as mesmas. Bala perdida vinda de um confronto entre policiais e bandidos, vítimas confundidas com suspeitos ou até mesmo a afirmação de que as vítimas atentaram contra os policiais que revidaram para se proteger, como mostram vários relatos contidos no livro “Rota 66: a história da polícia que mata” do jornalista Caco Barcellos que em 1992 já denunciava o modus operandi violento e genocida com que agia a polícia militar de São Paulo.
Muitos são os casos e essa violência parece estar longe do fim, reforçando assim a necessidade do debate sobre a questão da desmilitarização da polícia militar, por exemplo. Especialistas defendem o fim do caráter militar das polícias como forma de tornar as corporações mais próximas da sociedade e dar a elas uma formação voltada para a proteção da cidadania e a garantia de direitos. Enquanto a doutrina militar seguir, como foi historicamente criada, sendo a defesa de território, governos e seus governantes, na qual o adversário é sempre um inimigo a ser abatido, a atuação da polícia seguirá violenta e defasada.
Chega de balas perdidas sempre nos mesmos endereços vitimando as mesmas pessoas. Vidas pretas importam e imploram por mais segurança, pelo direito de ir e vir e por punições mais brandas para crimes sem motivação realizados pela policia que deveria proteger a população. Basta de abuso de poder. Basta de violência! Por Marcelo Guimarães, Edson Arguinez Junior, Jordan Luiz Natividade,Giovani de Oliveira, João Pedro e tantos outros.